A ideia simples

Um sequenciador por passos divide o tempo em fatias iguais chamadas passos (steps). As fatias ficam em fila, da esquerda para a direita. Cada uma pode estar ligada ou desligada. Quando você dá play, o sequenciador passa pelas fatias no tempo que você definiu e toca um som em toda fatia que está ligada. Ao chegar no fim, volta para o começo e segue em loop.

Duas direções, dois papéis:

  • Da esquerda para a direita é tempo. Cada coluna é um passo.
  • De cima para baixo é o som. Em bateria, cada linha é uma peça diferente. Em melodias, cada linha é uma nota diferente.

É isso. Tudo o que você vai ler em seguida (swing, probabilidade, padrões mais longos e tal) é só um extra em cima dessa mesma grade.

Um pouco de história

O sequenciador por passos veio das antigas baterias eletrônicas. A Roland TR-808 (1980) e a TR-909 (1983) tinham 16 botões em linha. Cada botão era um passo. Você escolhia uma peça, marcava os passos em que queria ela soando e apertava play. Esse visual de 16 pads acesos é o estilo que quase toda ferramenta moderna de beats copiou.

O sequenciamento por passos também apareceu em sintetizadores de baixo como a Roland TB-303 (1981) e a MC-202 (1983). Você entrava com as notas uma a uma e saía uma linha de baixo.

Em computadores domésticos, os trackers fizeram algo parecido, mas com a grade virada. O tempo corre de cima para baixo em vez de esquerda para direita. O Soundtracker no Amiga (1987) foi o primeiro grande. Depois vieram o ProTracker no Amiga e o FastTracker no PC, no começo dos anos 90. Mesma ideia, cara diferente.

Hoje quase todo app de beats e groovebox tem alguma versão de sequenciador por passos. Ableton, FL Studio, Bitwig, os hardwares da Elektron, os aparelhos de bolso da Teenage Engineering e o DAWG usam um.

Passos, tempos e compassos

A maior parte da música é contada em compassos. Um compasso na fórmula mais comum (4/4) tem 4 tempos. Cada tempo geralmente se divide em 4 partes menores. Por isso se chega a 16 passos por compasso, e por isso 16 é o padrão em quase todo sequenciador.

Numa grade de 16 passos contada "1, 2, 3, 4":

  • Passos 1, 5, 9, 13 são os quatro tempos principais. Os pontos em que você bateria o pé.
  • Passos 3, 7, 11, 15 ficam bem no meio dos tempos. O "e" de "1 e 2 e 3 e 4 e".
  • Os outros passos são as divisões ainda menores.

Você não precisa ficar contando nada disso na cabeça. Toca nas células e ouve. Seu ouvido avisa se o golpe ficou no tempo ou fora.

O swing deixa humano

Uma grade pura, sem nada, soa meio robótica. O swing (às vezes chamado shuffle) resolve isso empurrando um pouquinho para trás cada passo par. Um atraso pequeno dá balanço ao padrão. Demais, você entra num groove com swing pesado, estilo hip hop antigo ou UK garage. Faixa padrão tipo MPC:

  • 50%: reto, sem swing.
  • 54 a 62%: groove leve, muito comum em beats modernos.
  • Perto de 66%: shuffle de tercinas clássico, pegada hip hop forte.
  • 75% pra cima: swing pesado e preguiçoso.

Muitas vezes o swing é a diferença entre um beat que parece tocado por alguém e um que parece metrônomo.

Bateria vs melodias

A grade funciona igual nos dois casos, mas as linhas significam coisas diferentes.

  • Bateria. Cada linha é uma peça. Bumbo numa linha, caixa em outra, chimbal em outra. Você monta o beat escolhendo qual peça bate em qual passo.
  • Melodias. Cada linha é uma nota diferente. A maioria dos apps amigáveis para iniciantes trava as linhas numa escala musical (por exemplo Dó menor) para tudo soar bem junto. Linha mais alta = nota mais aguda. Você faz linhas de baixo, arpejos e melodias simples.

Essa trava de escala é o que torna o sequenciamento melódico tão tranquilo para iniciantes. Você quase não consegue errar a nota, porque só as certas estão na grade.

O que mais um sequenciador por passos faz

A maioria dos sequenciadores vai além de só ligar/desligar. Você vai ver algumas ou todas essas funções:

  • Velocidade por passo. O quanto o golpe bate forte. Bumbos fortes nos tempos principais, ghost notes suaves no meio.
  • Duração da nota. Quanto tempo a nota segura. Toques curtos vs notas longas.
  • Altura por passo. Na grade melódica, a nota em si.
  • Probabilidade. Um passo que só dispara às vezes, por exemplo em 50% das voltas. Ótimo para manter o loop vivo ao longo de muitos compassos.
  • Padrões mais longos. Muitos sequenciadores passam dos 16 passos. 32, 64, até 128. Mais passos = mais espaço pra variar.
  • Tamanhos diferentes por pista. Bateria com 16 passos enquanto o baixo tem 12 ou 7. As pistas se desencaixam e o loop vai se transformando sozinho.

Não se preocupe se seu sequenciador não tiver tudo isso. Só com liga, desliga e velocidade dá para ir bem longe.

Sequenciador por passos vs piano roll

São os dois principais jeitos de escrever notas num app de beats. A maioria usa os dois.

  • Sequenciador por passos. Rápido, visual, grade fixa. Melhor para bateria, linhas de baixo e padrões simples que se repetem. Todo passo tem a mesma duração.
  • Piano roll. As notas flutuam livres numa linha do tempo. Podem ter qualquer duração e começar em qualquer ponto. Melhor para melodias expressivas, acordes e tudo que não cabe bem numa grade fixa.

Comece pelo sequenciador por passos. Quando quiser uma nota que não encaixa na grade, mude para o piano roll. Veja o guia do piano roll.

Por que é bom para iniciantes

  • Você vê o padrão inteiro. Sem scroll, sem camadas escondidas.
  • Mudanças são imediatas. Toca numa célula e a próxima volta já soa diferente.
  • Erro é barato. Golpe errado? Desliga e tenta outra coisa.
  • Sem pressão de timing. Não precisa tocar no tempo. A grade cuida do tempo. Você só escolhe o que acontece.
  • Com trava de escala, nada de nota errada. Tudo encaixa no tom.

Padrões clássicos para testar

Copia, muda, quebra. São só pontos de partida.

  • Four on the floor. Bumbo nos passos 1, 5, 9, 13. Base de house, techno e disco.
  • Backbeat. Caixa ou clap nos passos 5 e 13 (tempos 2 e 4). Base de rock, pop e muito hip hop.
  • Chimbal em colcheias. Chimbal nos passos 1, 3, 5, 7, 9, 11, 13, 15. Mantém o movimento.
  • Chimbal em semicolcheias. Chimbal em todo passo. Trap e rap moderno.
  • Boom bap. Bumbo no passo 1 e por volta do passo 11 (o "e do 3"), caixa nos passos 5 e 13, chimbal com um pouco de swing. Hip hop dos anos 90 num padrão só.
  • Estilo reggae. O skank (um acorde curto de guitarra ou piano) cai nos passos "e": 3, 7, 11, 15. Bumbo e baixo variam conforme o riddim. Tenta bumbo no 1 e uma linha de baixo simples que converse com o skank.
  • Baixo estilo acid. Liga vários passos, mantém em uma nota principal com alguns saltos, adiciona acentos e slides se o app tiver. Inspirado na TB-303.

Sequenciador por passos no DAWG

No DAWG o sequenciador por passos se chama modo Simple. Funciona em 9 instrumentos: drums, bass, groove, synth, electric, guitar, arp, sampler e vocal. Cada instrumento tem sua própria grade.

Baterias mostram linhas de pads. Instrumentos melódicos mostram linhas travadas na escala escolhida, então só dá para por notas que batem com o tom. Dá para trocar de instrumento com o padrão tocando e ouvir a mudança na hora.

O modo Simple tem velocidade por passo (quão forte cada golpe toca) e padrões longos com páginas (até 128 passos, 32 visíveis por vez). Se quiser mais controle, como notas de durações diferentes ou melodias mais expressivas, dá para passar aquele instrumento para o piano roll. Ao trazer notas do piano roll de volta para o Simple, as que estão fora da escala atual podem cair. Então defina o tom antes de ficar indo e voltando.

Novo no DAWG? Comece por como fazer seu primeiro beat.

Perguntas frequentes

Sequenciador por passos é a mesma coisa que bateria eletrônica?

Não exatamente. Uma bateria eletrônica é um equipamento completo (ou app) que costuma ter um sequenciador por passos embutido mais seus próprios sons de bateria. O sequenciador por passos é só a parte da grade. Sozinho, ele controla qualquer som, de bateria ou melodia.

Quantos passos meu padrão deve ter?

16 é o padrão e cobre um compasso normal. 32 para uma frase mais longa. 64 ou mais para muita variação. 8 para um loop curtinho.

Dá para fazer melodia num sequenciador por passos?

Dá. Use um sequenciador melódico com trava de escala ligada. Perfeito para linhas de baixo, arpejos e melodias simples. Para melodias mais complexas, com notas de durações diferentes, o piano roll cai melhor.

Qual a diferença entre sequenciador por passos e piano roll?

Sequenciador por passos: grade fixa, cada espaço com a mesma duração. Rápido para bateria e partes simples. Piano roll: linha do tempo livre, as notas podem ter qualquer tamanho em qualquer posição. Melhor para melodias e coisas mais expressivas.

Preciso de teclado MIDI para usar um sequenciador por passos?

Não. Você só toca em células. Um teclado MIDI é útil para tocar melodias à mão, mas em bateria e linhas de baixo simples a grade é mais rápida.

Que tempo usar?

Depende do estilo:

  • Boom bap hip hop: entre 85 e 95 BPM.
  • Lofi: 70 a 90 BPM.
  • House e pop: perto de 120 BPM.
  • Techno: perto de 128 BPM.
  • Trap: perto de 140 BPM (muita vez com sensação de meio tempo).
  • Drum and bass: perto de 170 BPM.

Começa no tempo do gênero e ajusta pra cima ou pra baixo até bater.

Toque na grade.

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